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quarta-feira, 14 de julho de 2010

I understand, you really hate that bitch. Now, shut up and kiss me.

Ele entrou chutando a porta, jogou a jaqueta de couro no sofá, resmungou alguma coisa muito, muito feia sobre o mundo e simplesmente se deitou com a cabeça no colo dela. Foi isso, não lhe dera sequer um 'oi', nem a olhara nos olhos. Se não fosse sexta-feira e ela não estivesse muito feliz porque Amanda viria perturbá-la de novo dali à algumas horas, teria chutado o deus para o chão para que uma de suas gatas o comesse vivo.
"Oi, Ares." - O deus da guerra lhe respondeu com algo entre um rosnado e um resmungo. Ela se esforçou para sorrir. - "Deixe-me adivinhar. Afrodite?"
Ares olhou-a com as íris vermelhas como sangue. Fez que sim com a cabeça e se virou, o nariz roçando na barriga da garota. Ele pode sentir o cheiro da pele morena dela, por um segundo, se acalmou quando ela prendeu a respiração.
"Detesto aquela mulher."
"Faz muito bem, ela não presta. Ninguém que goste tanto de rosa pode ser boa de coração." - As mãos dela passeavam pelo cabelo negro dele sem percerber, o homem capaz de edxplodir um dragão com os olhos que entrara em sua casa agora parecia mais um daqueles cães enormes, mas bem mansinhos. Ela conteve um risinho, mas ele sequer percebeu, olhando nos olhos dela.
"Queria poder largá-la de uma vez para que se vire com Hefesto, não aguento mais tanta neurose."
"Relaxa." - Os dedos dela passaram para a bochecha dele. - "Um dia você acha alguém que vale a pena."
Então, uma luz se acendeu na cabeça do deus e ele se sentou em um salto, aliás, era meio bizarro um homem daquele tamanho ser tão ágil. Quando se tratava de velocidade, ela preferia imaginá-lo como um rinoceronte, não como um gato. [Mesmo que ele fosse, quero dizer, um gato.]
"Quê?" - Ela disse. - "Tem formiga no meu sofá?"
"É você!"
"Eu sou uma formiga?" - Perguntou rindo, até ter o rosto puxado até alguns centímetros do rosto cheio de cicatrizes dele. Prendeu a respiração. Ficou vermelha como os olhos dele.
"Não." - Ele revirou os olhos. - "É de você que eu estou precisando."
E ele a beijou como nunca beijou ou beijaria Afrodite, porque ele andava precisando de uma garota como ela, que fosse diferente de todas, mas que não fosse diferente dele. Uma garota para ele amar de verdade, só para variar.

I'm sorry for protecting you.

"Raiza, espera." - Hermes sussurrou e sua voz era tão delicada quanto seu toque no pulso da garota e quase tão triste quanto o canto de Orfeu, tivesse ele sabido que ela nunca fora e nunca seria como as outras meninas de sua idade. Ao menos, ainda havia tempo para consertar um erro que aos olhos de um deus era tão bobo quanto seus sorrisos para ela, mas ao mesmo tempo tão grave, tão terrível aos olhos dela, que era humana. - "Por favor, não vá."
"Por quê?" - Resmungou ela, soltando-se do aperto leve e recolhendo o pulso junto ao peito. - "Vai querer me levar para casa também? Me acompanhar para todos os lugares? Ah, não, espera... - Olhou-o irritada, Hermes quase via faíscas em seus olhos escuros. - ...Você já faz isso! E quer saber, Hermes? Eu estou cansada disso tudo, de ser tratada como criança. Vá embora e nunca mais..."
Porém, Raiza nunca conseguiu completar o que ia dizer, vendo-o tão abatido e tão, tão, tão triste quanto...Bom, quanto ela. Então soltou os sapatos na grama molhada, cruzou os braços na altura do peito, respirou fundo e franziu o cenho, da mesma forma que fizera quando se conheceram. Ele piscou, desviou o olhar, abriu a boca e nada disse por segundos. Suspirou uma, duas, três vezes enquanto ela revirava os olhos.
"E então?"
"Desculpe. Sei que exagero, que a irrito e que sou ridículo com toda essa minha obsessão por acompanhá-la, mas, Raiza, tente entender que o mundo já não é como era quando eu era jovem, tudo é tão perigoso e... - Ela abriu a boca para protestar, mas o indicador dele tocou seus lábios por um segundo, silenciando-a. - E eu não posso estar em todos os lugares ao mesmo tempo, tenho medo de perdê-la para um dos ladrões que protejo ou para Tánatos. Entende? Eu a amo."
Um minuto se passou, talvez dois. Eles não piscaram e continuaram se encarando, ecanrando, encarando sérios e tristes. Então Hermes viu algo nos olhos dela e abriu os braços no exato momento em que ela o abraçava tão forte como Héracles nunca seria.
"Pelos deuses, eu o amo!" - Disse e os dedos dele corriam por seu cabelo, sempre muito delicados quando ele deu uma risadinha satisfeita. - "E então, Hermes?"
"O quê?"
"Vai me levar para casa?"
Ele beijou sua testa.
"Sempre que desejar."

quarta-feira, 23 de junho de 2010

About a god that doesn't know how to date a girl.

Tênis de corrida sujos de lama, uma mochila estampada com a bandeira do Brasil, um boné do Mário e a paciência indo para o espaço.
“Está chovendo.” – Disse o deus, que naquela hora nem era deus, era só mais um cara com quem esbarrara no ônibus Minas Gerais – Rio de Janeiro e era só mais um motivo para fazê-la gritar, chamar a polícia, querer morrer. [E aquelas duas vadias da Mandie e da Nanne nem mostravam as caras na rodoviária!]
“Jura?” – Rosnou em resposta, molhada. E não era a primeira vez que quisera mandá-lo para o inferno, aquele sujeito não parara de importuná-la desde que se sentara ao seu lado. [E lá se fora sua chance de ouvir Panic At The Disco para fazer inveja na Mandie!]
“Esse seu mau humor poderia te matar, não é bom desrespeitar um deus.”
“Para começo de conversa, o tal deus está fazendo por merecer. Desde que eu sentei no ônibus, o senhor não parou de falar um instante, foi incapaz de me deixar dormir – sendo que eu acordei muito, muito cedo! – e sequer teve a noção de notar que estava me incomodando com esse seu jeito de bom moço. Aliás, está todo mundo olhando...! Sai já daqui!”
Ele sorriu para ela. Ela sorriu sem vontade, aqueles sorrisos afetados, cheios de raiva. [Opa, alguém ali precisava dormir.] Porém ele não se abalou, nem engoliu em seco como os outros caras, nem piscou e talvez, aquela paciência toda dele fosse ainda mais irritante, por mais que ela admitisse que daria uma chance se tivesse dormido mais de dois minutos. Ele era gato. Insuportável, mas gato.
“É que eu sou o deus dos viajantes, meu bem, tenho que cuidar para que você não morra em sua primeira viagem ao Rio de Janeiro!”
“Pouco me importa, Hermes, vá ajudar os mexicanos a pular o muro da fronteira com os EUA.” – A voz um pouco mais alta que o normal. O sorriso dele imóvel. Os olhos fixos uns nos outros. Ele se aproxima e...
“SAKI! SAKIII! AQUI, AQUI!” – Gritaram duas garotas que devem ter sido amaldiçoadas por Hermes e ela, Raiza, sorriu aliviada, fugindo para elas, fugindo dele.
“Espera!”
“Que é?” – Ela nem se virou.
“Se eu esperar você dormir e esse seu mau humor passar...Posso te levar para sair?”
“Só se eu nunca mais esbarrar com você em um ônibus.”
E dos gritos dela na rodoviária e dos sorrisos dele apenas para ela, vieram encontros, beijos, brigas e um sentimento bobo, bobo, bobo. De primeira viagem.
[Aliás, quem é que não se importa com a intervenção divina de vez em quando?]

Porque agora somos tão chiques que até os deuses nos querem.